domingo, 18 de março de 2012

Ao pé

Nunca pediu espaço
E num apertado é que fica
Seus membros, emaranhados
A custo de uma bela vista.
E tão importante é
Que nunca lhe dão apreço
Masoquista, desgasta e fere
Nunca ao outro, a si mesmo.
Corre pra chegar lá,
Volta pra não sair,
Fica pra não voltar,
Deita pra não cair.
Pisa sem esmagar,
Da ponta, da sola, do peito
Calcanhar
É d'água, de planta, de sei-que-lá
Faz nada pra se mostrar.
O choro é só suor
Suor é só penar
Penar que é só ardor
Arder até cansar.
Na fotografia não se vê
Na estátua ele não está
Na rua vai caminhar,
Faz hora pra se perder.
E fica pra sustentar
Quem lhe agradecido não é
Erectus, se diz o Homo
Só porque está em pé.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Telefonema

 Diálogo 2


-Alou quem fala?
-Sou eu meu camarada!
-Seria quem eu estou pensando?
-Se for eu, então seria sim.
-Mas há quanto tempo!
-Sim, saudosa alegria de conversar novamente contigo, amigo!
-E olha que digo o mesmo! Senti saudades!
-Não mais que eu, posso apostar (e risada).
-E como não! Estava inda agora, ou há algum tempo, tanto faz, imaginando por onde andava o caro! Senti amargas faltas.
-Pois eu digo ao amigo que é impossível que tenha sentido mais faltas que eu. E digo ainda mais, que continuo as sentindo.
-Julga o camarada que sou mentiroso? Pois olha que digo a verdade e ela é grande!
-Mas não coloque palavras onde não cabem! Nunca disse nada disso, se bem me parece que quem julga o outro por engabelador é o companheiro...
-E tem a audácia? Nunca que diria algo assim. Pois saiba o digníssimo que senti saudades da camaradagem, mas parece que o camarada não é o mesmo, se é o que percebo!
-Diz-me então de falso? Ora bolas, mais essa. Se quer saber, falsidade é o que escuto passando pela linha! Deixe de ser recalcitrante!
-Recalcitrante eu? Pois o senhor que me vem com conversas fiadas e rompe toda a beleza da ligação que vim fazer. E não ligo mais, saiba desta outra!
-Que não ligue! Saudades de antítese personificada é que não vou sentir. Onde já se viu algo assim? Passar bem.







(Inspirado em "Prazer em conhecê-lo", de Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 3 de março de 2012

O ônibus

  Conheci um ônibus. Fui ao seu encontro e o descobri. Escalei seus degraus e o desvendei. Ele se abriu pra mim. De dentro pra fora, como deve ser, com lentidão e paciência (minha, é claro). Conheci um ônibus. Conheci seu condutor simpático e tímido. Conheci sua estrutura monumental que pode ser vista por todos, mas nunca fica parada em um só lugar. Conheci suas janelas, seu chão, sua vaidade. Conheci seu sócio, aquele que tira dinheiro de seus apreciadores, carrancudo e mal humorado, ou apenas cansado de guerra. Conheci suas poltronas, seu chão e seu teto. Conheci seus habitantes temporários, seus inquilinos relâmpago.
   Conheci a dona de casa cansada, com suas compras insuficientes para sua abundancia familiar, mas com um esforço suficientemente abundante. Conheci o rapaz esforçado, com seus livros pesados e sua barba por fazer, os olhos cerrados, as olheiras presentes e a cabeça alheia ao movimento de encontro ao vidro. Conheci as garotas jovens, com vontade de viver e com vida, com os sorrisos de piada interna e com anedotas externas não tão sorridentes. Conheci o casal idoso, com seu amor indelével, com suas caricias reprimidas e com sua implicância contida no tempo. 
   Conheci os garotos unidos, com qualquer lugar pra ir, com qualquer vontade nos olhos, sem qualquer peso nas costas. Conheci o homem atrasado, acomodado de rosto, frustrado de alma, esperando o momento certo pra implodir sua impaciência, já que explodi-la causaria grandes vexames. Conheci as trabalhadoras sonolentas, com necessidade de movimento mesmo que interno, com as esperanças invisíveis externamente. Conheci também outro descobridor de ônibus, assim como eu, com os olhos decifrando faces até encontrarem a minha e sorrindo para ela sem mover os lábios.
   E por fim conheci a rua. Vi-a passando pela janela, mas queria conhecê-la de perto, então me despedi do ônibus, já velho conhecido. As portas com problema mecânico faziam menção de me pedir pra ficar, mas eu estava só de passagem.